domingo, dezembro 12, 2010

Raison d´etre
(A razão de ser deste blog)

Quando eu encontrar você
Esse mundo louco vai fazer sentido
E todo esse espírito de porco
Que aos poucos me mata vai morrer de vez e essa vida ingrata
Vai virar domingo
DISCIPLINA É LIBERDADE ou MERGULHAR FUNDO

Nunca vi um poço artesiano. Eu acho. Nunca caí num poço, disso tenho certeza. Mas sei exatamente qual é a sensação. Com uma certeza daquelas que não deprime. Esmaga. Pensei nisso porque recentemente aconteceram coisas boas que não se realizaram, e podem nunca se realizar. Isso anula sua bonança. Dias perfeitos que só foram imaginados. A imaginação, por sinal, é o lugar onde um dia mais facilmente pode exercer a petulância de ser perfeito.
“Disciplina é liberdade. Compaixão é fortaleza. Ter bondade é ter coragem”. Tudo isso é um excelente preâmbulo, com seus aparentes paradoxos (Budistas? Taoístas? Preciso ler mais sobre ambos...), mas o mais importante está logo depois: “Ela disse: - lá em casa tem um poço, mas a água é muito limpa”. Tão limpa que chega a atrair. Convidativo como uma piscina. Um poço entupido de cadáveres afogados porque todos querem se purificar no cristalino de suas águas. Fora da letra da música, a pessoa que me inspirou este texto não disse isso literalmente, mas bateu na tecla desse significado várias vezes com outras palavras, que eram também cristalinas.
E eu não quis me afogar. Quis, mas não o suficiente.
Claro que eu sei que o original é uma metáfora. O poço brota da terra, mas o consideramos limpo demais porque não somos merecedores de tamanha dádiva. Aquele presente que surge do ventre de Gaia (poderíamos chamar esse ventre de “encontro casual numa noite qualquer”) não pode ser tocado por nossa podridão humana e mundana (ou não podemos mergulhar profundamente nele porque sobra covardia).
Gaia não esquece de seus filhos. Apesar da recíproca não ser verdadeira. Sempre que o maravilhoso se manifesta no casual, ele o faz com toda a força que tem, tal que nos assusta tanto que fugimos. Contrariados. Mas partimos porque não suportamos mais que alguns minutos junto dele, mergulhados. Nos julgamos não merecedores, subimos ofegantes à superfície da rotina e não olhamos mais para aquele brilho cristalino hipnotizante. Mas não, estou mentindo. Às vezes olhamos de novo.
SPRINT. PAUSA. SPRINT. PAUSA. SPRINT. PAUSA. SPRINT. PAUSA.
É estranho, por ser ao mesmo tempo desesperador e alienante. Ter a perspectiva de ganhar dinheiro num futuro próximo mas não especificamente localizado é pior do que não ter perspectiva alguma. É como se o tiro de inicio da corrida tivesse sido disparado há poucos segundos e não me disseram se são 100 metros rasos ou maratona.
Essa perspectiva fica ainda mais bizarra e surreal e brumosa quando se tenta manter os hábitos sociais que envolvem ter grana. A saber, as atividades supérfluas que nos mantém em contato com nossos semelhantes (quem?). Existir socialmente é ter dinheiro!
Em retrospectiva, sob esse prisma, relacionamentos ocorridos em épocas de penúria da minha vida eram, no que concerne à estrutura, quase somente sexo recreativo. Tinham, sim, sentimento (nem sempre tão intenso ou profundo quanto se espera ou se admite....), mas ao descrever a rotina que se desenvolveu naturalmente, me vem a frase “Pô, a gente não saía daquela cama”.
AUTO-AJUDA
"A diferença básica entre obstáculo e dificuldade é que aquele é intransponível e esta é transitória" => frase impressa na capa de um livro de auto-ajuda

A necessidade de justificar a inércia e a incapacidade é um fenômeno humano contemporâneo. Antes da Revolução Industrial, da expansão do ensino público e da universalização do voto, não existia tanta gente tão frustrada consigo mesma. Estamos na era dos gurus, falcatruas vivas, estelionatos de carne e osso, que dão um toque de magia e espiritualidade pagã ao capitalismo. Empresas são mais do que pessoas jurídicas, tornam-se conclaves de magos. Na corrida da carreira, aparece a pista paralela da iluminação. Nirvana financeiro.
Mas a felicidade não é uma catatonia. Não existe processo de criação de alegria, somente intuições mais ou menos bem elaboradas de como encontrar contrapesos para a tristeza cotidiana. A tristeza é inevitável, a felicidade não. Viver é sofrer e duvidar. Inclusive duvidar que o dinheiro vai chegar pras contas. Às vezes, o inferno é periódico. Mensal.